terça-feira, 23 de março de 2010

BOA SORTE

É só isso
Não tem mais jeito
Acabou, boa sorte

Não tenho o que dizer
São só palavras
E o que eu sinto
Não mudará

Tudo o que quer me dar
É demais
É pesado
Não há paz

Tudo o que quer de mim
Irreais
Expectativas
Desleais

Mesmo se segure
Quero que se cure
Dessa pessoa
Que o aconselha

Há um desencontro
Veja por esse ponto
Há tantas pessoas especiais



... EIS ALGUMAS:

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quinta-feira, 11 de março de 2010

O VALOR DAS COISAS SIMPLES: Projeto Baú do Tempo

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"Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim
Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar"
(Gilberto Gil - Back in Bahia)



O presente projeto nasceu da iniciativa de um trabalho pedagógico centrado na construção do conhecimento através da ludicidade, explorando a história e o patrimônio municipal tendo como base a própria cultura material e para isso encontramos um parceiro perfeito: o museu.

O museu não é um “depósito de coisas velhas”, ele é um lugar de construção de conhecimentos e de identificação, tanto individual quanto coletiva. Mas para ele exercer esse papel deve apresentar certas características que aproximem a educação formal (a escola) da educação não formal (o museu, o arquivo, o patrimônio, etc.).

Essas características são as que ajudam a desmitificar a idéia de museu como algo chato, voltado somente para o passado, onde, na maioria das vezes, os visitantes não se sentem como parte integrante desse processo histórico, justamente por não haver uma identificação do sujeito com o local, com os objetos e com a própria história.

Assim o projeto “Baú do Tempo” procura reafirmar algumas dessas características de museu como espaço dinâmico, participativo, construtivo, investigativo, problemático e prazeroso. No momento em que a visitação ao museu não será mera passagem entre os objetos, mas sim uma problematização, contextualizando o visitante com a história de sua vida, de seu município, estado ou país. Ficando claro, que o visitante também faz parte do processo histórico e que possui a sua própria historicidade.

As atividades do museu fazem parte de um processo, o qual, muitos profissionais da área, chamam de processo museológico, que pode ser entendido pela investigação (pesquisa), preservação (coleta, documentação, conservação) e comunicação (exposição, ações educativas). Para quem os museus desenvolvem esse processo? Devemos pensar na sociedade como principal beneficiária, afinal, o museu é uma instituição a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, segundo o Conselho Internacional de Museus (ICOM) e o Departamento de Museus e Centros Culturais, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DEMU/ IPHAN).

O processo museológico tem como referência o patrimônio cultural. E através dele é possível que o indivíduo tenha maior interação com a realidade em que vive sendo capaz de interpretá-la, de entender sua historicidade, de perceber seu papel enquanto ator social. Democratizar o uso e acesso do patrimônio cultural é tarefa das instituições museológicas.

De acordo com o Professor Doutor Camilo Vasconcellos “devemos reconhecer que o museu pode converter-se em instrumento para fortalecer as identidades e a integração das comunidades e dos povos, promovendo a tolerância, o respeito mútuo e a aceitação da diversidade cultural”. Assim, é possível compreender que o museu tem uma função social e que profissionais de museu e outros profissionais que trabalham com o patrimônio cultural têm uma responsabilidade social.

Procuramos, com esse trabalho, dar ênfase num novo olhar para a história, através de novas abordagens, que no caso será o museu e seu acervo, o patrimônio municipal, o uso de imagens, do trabalho lúdico e de diferentes metodologias que auxiliam no processo de ensino e aprendizagem, centrado nos princípios e teorias da Nova História Cultural, a qual nos dá múltiplos questionamentos às mais diferentes fontes pois é ela que traz essa nova forma de tratar a cultura. Segundo Pesavento (2002 : 15) agora trata-se: Não mais como uma mera história do pensamento, onde estudava-se os grandes nomes de uma dada corrente ou escola. Mas, enxergar a cultura como um conjunto de significados partilhados e construídos pelos homens para explicar o mundo.

Se ao visitar um museu, um indivíduo tentar estabelecer relações entre o acervo e sua própria época, começará a perceber que muita coisa vai ganhar sentido. Afinal, o que se construiu ontem reflete no hoje. O ser humano necessita saber sua origem, o porquê das coisas.

Por isso desenvolvemos o projeto Baú do Tempo, onde uma das atividades realizadas é justamente o levar o museu até a escola, onde um baú itinerante com peças do acervo do Museu Municipal Pedro Palmeiro, fotos antigas e fotos atuais da cidade, os chamados “kits” vão para a escola, num trabalho inovador integrando os conteúdos de aprendizagem à educação patrimonial, a consciência histórica, a memória, o urbano, a investigação e análise de mentalidades de épocas diferentes confrontadas com a realidade do educando, criando assim a noção de “fazer história”.

Outra ação importante que o Projeto Baú do Tempo, passou a desenvolver a partir do ano de 2009, foi a oferta de pequenos Cursos de Formação Continuada, como no caso do Curso “O Papel da Sociedade em Relação ao Patrimônio”, com duração de 60 horas distribuídas de março a dezembro, em encontros nas sextas-feiras a noite. Esse curso contou principalmente com acadêmicos do Curso de Ciências Sociais, como também, dos Cursos de História e Pedagogia, visto como semeadores de uma prática educativa, a qual oportuniza, de maneira interdisciplinar, a Educação Patrimonial.

Sendo que, para este trabalho, é de extrema relevância a parceria com as escolas, pois é necessário que desde cedo o indivíduo internalize a importância do patrimônio na sua vida e crie o gosto pela visita a exposições culturais. Para que isso aconteça, é necessário que professores, coordenadores e diretores abracem a causa.

O museu (ensino não-formal) não pode substituir a escola (ensino formal). Cada um possui seu papel, que não deve ser ignorado. O que destacamos é a parceria entre as instituições, importante tanto para a preservação do patrimônio como para o aproveitamento do mesmo na vida dos alunos. Salientamos a importância do museu para o processo de ensino e aprendizagem, acreditando que o mesmo é um lugar vivo e dinâmico, onde a tradição pode ser conhecida, percebida, questionada e reinventada (SANTOS 1997).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

HUNT, L. Nova História Cultural. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

MINISTÉRIO DA CULTURA/IPHAN. Política Nacional de Museus. Brasília, 2003.

PESAVENTO, Sandra J. História e história cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

POLÍTICA NACIONAL DE MUSEUS: Programa de Formação e Capacitação em Museologia – Eixo 3/ Ministério da Cultura do Brasil, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, Departamento de Museus e Centros Culturais; organizado por Maria Célia Teixeira Moura Santos. Salvador: MINC/IPHAN/DEMU, 2005. (relatório 2003-2005).

SANTOS, Maria Célia T. Moura. Museu e Educação: conceitos e métodos, 2001.

VASCONCELLOS, Camilo de Mello. Museus, Turismo e Lazer: uma realidade possível. Disponível em: http://www.unisantos.br/pos/revistapatrimonio, acessado em 01/12/2007.

segunda-feira, 1 de março de 2010

SAPOS E ESCORPIÕES

A maior descoberta da minha geração é que qualquer ser humano pode mudar de vida, mudando de atitude.

(WILLIAN apud CARLSON, 1998, p.15)



A luz do sol refletia na água do caudaloso riacho que cortava em duas partes o belo e movimentado bosque.

Alguns animais achavam que havia animais com muita sorte, outros se achavam a si próprios sortudos e tantos outros nunca tinham parado para refletir sobre isso. Mas a sorte consistia em poder frequentar os dois lados do bosque separados pelas águas.

Para os pássaros isso era normal e não tinha relevância alguma, já para os gansos era motivo de tirar proveito, barganhar, enobrecer-se e até mesmo, de vez enquando, chantagear. Afinal, eles podiam transitar livremente entre os dois extremos, ora carregando uns, fazendo singelos favores e deixando no ar aquela tão conhecida expressão de “uma mão lava a outra”, ora arrastando outros, obrigando-lhes a se submeter a suas vontades e vaidades, amedrontando-os com ameaças provenientes de seus temidos poderes de alarde, o que é típico dos gansos. E as vezes, também, sempre tinham os que “por acidente” ingenuamente se afogavam por considerarem algum ganso como amigo.

Mas nem todos os gansos juntos conseguiam se igualar ao Escorpião em sua astúcia e ofício de espalhar o pânico ao ser avistado. Sempre só, porque fere a todos a sua volta. Amigos? Não os tem. Não saberia vivenciar o sublime sentimento de uma boa amizade. O que ele tem aos montes são companheiros de conveniência, que socialmente se mostram admiradores por medo, mas que no fundo o repudiam por ser ter destrutivo.

Num dia qualquer o Escorpião almejou aumentar seu território, conquistar novas e desavisadas vítimas e assim, pensava ele, eternizar-se pela fama tão ostentada. Decidiu que se atravessasse o riacho encontraria vários animais que não o conheciam e por isso seriam pressas fáceis. Sapateou de alegria e empolgação!

Mas como atravessar? Se todos são vítimas em potencial? Ora! Basta arranjar um tolo. Alguém que não consiga ver a maldade, mesmo que ela esteja com um outdoor luminoso se identificando. E é tão fácil enganar os outros, pensou o Escorpião.

Todo confiante em suas ações e posturas começou a percorrer a margem do riacho até encontrar a vítima certa. Quem seria ela? Qualquer um! Tanto faz, desde que ele consiga seu objetivo.

E quem diria que não foi necessário procurar muito, pois bem pertinho, ao sol, estava o Sapo. Que para ajudar tinha a fama de não fazer mal a ninguém, pelo contrário sempre auxiliava aos outros. Era o plano perfeito!

O Escorpião chegou de mansinho e todo educado começou a dialogar com o Sapo, perguntando coisas como do tipo: “Como está calor hoje? Será que vai chover? E como está esse nosso riacho?” O Sapo, que era bom e não bobo, logo desconfiou da súbita crise de delicadeza do Escorpião e perguntou-lhe o que realmente queria.

Preciso muito atravessar o riacho, contou-lhe o Escorpião. Não consigo ninguém para me ajudar. Esse mundo é muito injusto, tudo culpa desse sistema instalado historicamente em nosso bosque, que contamina as relações sociais ... etc, etc e tal.

Bom... Não posso te ajudar, falou, calmamente, o Sapo.

Como não! Que história é essa! E o discurso de miserabilidade que acabei de lhe professar? Bem vi que você não tinha intelecto suficiente para dialogar comigo. Respondeu o Escorpião indignado.

Não é por nada, Senhor Escorpião, é que conheço bem o Senhor e as coisas do que é capaz. Pode parecer meu amigo nesse momento, mas quando eu menos esperar vai me ferir, pois tenho na memória o que já fez com outros animais. Seu passado o condena, explicou o anfíbio se aproximando da água.
Rapidamente, grita o Escorpião: Por favor! Eu imploro, não se vá ainda. Preciso que ouça a minha defesa, eu tenho direito de me defender, me pronunciar e fazer algumas colocações. Tudo bem?

Sei que sou um dos animais mais vis e nocivos que existe, desse lado do bosque. Não é a toa que estou no grupo dos animais peçonhentos. Está em meu ser, não posso evitar. Mas posso tentar construir uma imagem nova sobre meu respeito. Se você me ajuda atravessar o riacho eu terei oportunidade de um recomeço, de uma vida nova. Já que do outro lado os animais não me conhecem e não sabem da minha história e de todas as coisas horríveis que eu fiz. Depende de você colaborar para que isso aconteça.

Ok! Se é isso o que quer. Vou levá-lo em minhas costas até o outro lado. Espero que cumpra suas promessas e lembre-se de que estou te ajudando e que não almejo teu mal. Na verdade nem faço parte de sua vida, nem temos relações e nunca fiz nada a você. Sempre mantemos distância um do outro, ponderou o Sapo, que na verdade pensava: por que ele faria mal a mim? Se não faço nada a ele? Não o ameaço e nem lhe causo incomodo algum?

Só que ao finalizar a travessia o Escorpião, prontamente, feriu o Sapo na altura de sua cabeça e rindo passou para o outro lado do bosque, ridicularizando-o: Só sendo muito otário mesmo! Eu sou um gênio! Não há ninguém que se compare a mim! A minha inteligência e astúcia são únicas!

Mesmo sofrendo com a gravidade do ferimento, o Sapo questionou: Por que você fez isso? O que você ganhou com o que fez? Pelo contrário só perdeu, pois se fosse confiável eu poderia te atravessar sempre e você desfrutaria de ambos os lados do bosque.

Aprenda uma coisa querido, ironizou o Escorpião. A moral da história é esta: Para uma criatura má prejudicar os outros, não necessita de razões ou pretextos. Ela simplesmente faz, porque gosta, não importa a quem.
E assim o Escorpião se tornou o rei do pedaço.





CALMA! Não terminou ainda, continuando: E assim o Escorpião se tornou o rei do pedaço, até descobrir que do outro lado do bosque existia uma legião de brancos pássaros, que velozmente desciam das alturas e que tinham como prato principal em seu cardápio, justamente ele.

Ah! e o Sapo? Não fiquem tristes, pois ele não morreu. Ficou mais forte, pois o veneno do Escorpião ficou alojado em sua cabeça e serve como arma, quando se sente ameaçado. As feridas fizeram com que ele mudasse de coloração e tivesse um apetite voraz por presunçosos e maléficos escorpiões, colaborando conosco para o controle dessas pragas.

Essa história foi elaborada com base na Fábula do Escorpião e do Sapo, contada pelo Seu Eri, que só podia ser mesmo do Amor Divino.

Lembre-se:

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.” (Saint-Exupéry, 1983, p.74)


Obras utilizadas:

CARLSON, R. Não faça tempestade em copo d’água... e tudo na vida são copos d’água... Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

SAINT-EXUPÉRY, Antonie de. O Pequeno Príncipe. Rio de Janeiro: Agir, 1983.