segunda-feira, 26 de outubro de 2009

"O menor ato, nas mais limitadas circunstâncias, porta o gérmen da mesma ilimitabilidade e imprevisibilidade; um ato, um gesto ou uma palavra pode ser suficiente para mudar qualquer constelação. Na ação, em contraposição à fabricação, é de fato verdade que nunca podemos saber realmente o que estamos fazendo"

(Hannah Arendt, em Trabalho, obra e ação)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A MÁGICA COTIDIANA:

Uma Reflexão sobre a Prática Docente

Rodrigo Neres


Aprendi que trabalhar com a educação é tratar de um dos ofícios mais perenes da formação da espécie humana. Nossas práticas se orientam por saberes e artes aprendidas desde o berço da história cultural e social. Ingenuidade minha se acreditasse e fizesse acreditar que a Escola Plural e outras propostas estão inventando modas. Prefiro pensar que estão apenas, e é muito, tirando do baú dos esquecidos da história do magistério artes que não deveriam ter sido esquecidas. Artes de um ofício. Saberes e sensibilidades aprendidas e cultivadas. Guardadas no cotidiano, nas gavetas das salas de aula de tantos mestres de agora e de outrora. (ARROYO, 2000, p.09)


Uma platéia de olhos atentos, sedentos, criativos, curiosos, iluminados, cheios de vida a espera de um movimento, de uma palavra, de uma novidade. A arte capaz de transformar, emergir e revelar sentimentos, conhecimentos, realidades e mundos. O fazer mágico que tem o poder de tocar e atrair até as mais inalcançáveis plateias e transformá-las, multiplicá-las, torná-las detentoras de novas e surpreendentes capacidades e habilidades, que são mágicas também.

Assim é o ensinar. Um ato de pura magia, repleto de significações que fazem com que os seus realizadores tornem-se mestres de artes e ofícios os quais, na contemporaneidade, carregam um duro fardo: o de salvar a humanidade ou pelos menos, resolver alguns dos principais problemas sociais e construir possibilidades de um mundo melhor. Mas para isso, faz-se necessário a união de muitos atos mágicos. Mágicos não do tipo “super-poderes”, mas com ações possíveis e inovadoras que façam a diferença, transformando realidades existentes e apontando novos e iluminados caminhos.

É necessário que os seres mágicos que habitam os corações de nossos educadores, cresçam e mostrem-se dispostos e engajados ao trabalho de revolucionar a espécie humana, desde a formação na academia até seus últimos dias de compromisso, para que tenham a certeza e o prazer do dever cumprido. Que no voltar-se o olhar para a tela elaborada por Clio, veja-se saborosos e resplandecentes frutos, sustentados por longos galhos possibilitando, cada vez mais, que outros seres consigam se saciar e tirar, desses frutos, novas sementes para plantarem suas esperanças.

O trabalho de um educador é mágico. Pois consegue fazer de sua aula uma grande mágica, na medida em que, proporciona aos seus alunos a prática de olhar o mundo de diferentes formas e com outros olhos, a partir das construções e das descobertas que realizam através dos conhecimentos que lhes são mediados.

Podemos muito bem estabelecer uma relação entre o fazer mágico e a prática docente, sendo que esta, vista como dinâmica, flexível, lúdica e revista com criticidade constantemente. As práticas docentes centradas na idéia de uma educação voltada para a vida dos educandos, para a propagação de uma cultura inclusiva e de princípios e valores de vida, é que vão transformar-se verdadeiramente em atos mágicos para a construção de um mundo melhor.

Há muito do trabalho de um mágico na prática docente cotidiana, pois da mesma forma que o mágico, o educador necessita ter habilidades que façam com que seus alunos sintam-se atraídos e motivados pelas suas aulas, utilizando-se de inúmeros recursos lúdicos e criativos para que a verdadeira mágica aconteça nos corações de seus educandos. Dessa forma,
TE>O mágico precisa, acima de tudo, acreditar em sua mágica, colocar em sua apresentação um pouco de todas as outras artes para ser considerado um grande artista. Assim, também o educador precisa agregar a sua prática pedagógica outros instrumentos para enriquecer o seu potencial e oferecer amplos desafios a seus educandos (DORNELES, 2005, p.45).

Cada vez mais, a interdisciplinaridade bate a porta das práticas pedagógicas dos educadores. Cabendo a eles ter e manter o preparo frente as constantes mudanças e avanços sociais. Espera-se um educador capaz de realizar e oportunizar que seus educandos façam constantes diálogos entre si e seus pares, entre os seres humanos e a terra. (WERNECK, 2008, p.20). Almejamos pequenas mágicas no cotidiano escolar, para que contribuam na formação de uma cadeia de boas e conscientes ações, voltadas à melhoria dos processos educativos, da qualidade de vida e das perspectivas de um futuro mais humano.

Sim! Podemos crer que cada educador é como o pequeno beija-flor da fábula do incêndio, onde ao se defrontar com as vastas e mortais chamas na floresta, procura não fugir, mas enfrentá-las com pequenas gotas de água. Ao ser questionado pelo leão, que seria impossível vencer as chamas com tão pequenas ações o beija-flor simplesmente responde que está fazendo a sua parte.

Por essa razão que as práticas docentes necessitam estar casadas com a responsabilidade social e vislumbrar uma ética planetária. Para que os educadores e suas mágicas possam estar engajados na construção de uma sociedade mais fraterna, solidária e justa. E para isso os educadores devem:

(...) estar conectados às pessoas e, sobretudo, aos educandos, para senti-los mais de perto e, pelo desenvolver de uma linguagem neomatricista, prepará-los para a vida, com os olhos no presente, onde as relações se fazem no dia-a-dia do educar (WERNECK, 2008, p.20)


E é justamente nesse educar do dia a dia, que devem ser apostadas as esperanças e os sonhos, mas as mágicas devem acontecer para que isso torne-se realidade. Além de que, os educadores devem apresentar um comprometimento pela causa, já que de nada valerá os espetáculos sem propósitos e objetivos que contemplem as tão desejadas mudanças.

Nesse contexto, entra em cena, a importância da formação continuada vista a figura do educador como elemento fundamental do espaço educacional, “já que ele é o agente de um processo de transformação da realidade social.” (LIMA In: GRANVILLE, 2007, p.166).

Quando se fala em formação devemos lembrar sempre, que as práticas pedagógicas são produtos das concepções de mundo, educação e humanidade que cada educador possui e faz transparecer em seus atos e em suas mágicas. Podemos refletir sobre isso, na medida em que:


A formação não se constrói por acumulação de cursos, de conhecimentos ou técnicas, mas sim, através de um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de re(construção) permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão, importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência (NOVOA, 1995, p. 25).


Para a realização das mágicas nas práticas pedagógicas, os educadores na maioria das vezes, ou quase sempre, contarão mais com a ajuda das experiências acumuladas, dos saberes e dos fazeres já constituídos em seus interiores, do que simplesmente com a formação teórica e acadêmica.

Devemos sempre integrar a teoria com a prática, confrontando-as e refletindo sobre ambas e os produtos que geram. Porque precisamos que nossos atos mágicos estejam fixados em fortes bases teóricas que darão todo o suporte necessário para as práticas e suas dialéticas reflexões.

Assim, uma prática docente mágica é a que oportuniza descobertas e prazeres que contribuam para a vida em sociedade. Que faz com que os educandos e toda comunidade envolvida nos processos de ensino e aprendizagem, sejam integrantes da trama tecida por Clio, de maneira construtiva e participativa. Sendo enfocado o trabalho integrado dos conteúdos de aprendizagem com atitudes, valores de vida, experiências vividas e diversidades culturais, levando a transformação das realidades sociais e ao aceno para as possibilidades de um mundo melhor.


Este é um dos desafios da educação escolar: reforçar a lucidez, proporcionar hábitos e ferramentas intelectuais que ajudem a compreender as implicações de nossa ação e seu significado no que se refere a grandes princípios, como solidariedade, justiça, democracia, respeito às diferenças ou ao meio ambiente, por exemplo. (PERRENOUD In: Pátio, 2003, nº. 25, p.19).


Desejamos profundamente, que nossos educadores coloquem seus seres mágicos a trabalhar com força e disposição total para darmos início a uma grande e coletiva construção de mágicas. Que suas varinhas sejam usadas como nunca, com criatividade, responsabilidade e comprometimento em todos os confins da Terra.

Que a cada dia, possamos tomar conhecimento de novas mágicas, divulgá-las, ensiná-las e aglutiná-las as nossas. Somarmos conhecimentos e experiências, tornarmos orgulhosos mestre de artes e ofícios capazes de revolucionar a espécie humana e construir com certeza um mundo melhor. Pois é possível!

Com carinho de um pequeno, mas sonhador colega mágico.
Dedicado à Doralice Peres Fank (Gica), por suas inúmeras mágicas.


REFERÊNCIAS:

ARROYO, Miguel G. Ofício de Mestre : imagens e auto-imagens. Petrópolis, RJ : Vozes, 2000.

DORNELES, Valdeci A. Pahins. Recreação, Arte Mágica e a Música, como Instrumento Pedagógico. São leopoldo, RS : Oikos, 2003.

LIMA, Claudia M. de. Formação Contínua do Professor de Ensino Fundamental e Educação a Distância: reflexões sobre o potencial de aprendizagem. In: GRANVILLE, Maria Antonia. Teorias e Práticas na Formação de Professores. São Paulo : Papirus, 2007.

NOVOA, Antonio. Profissão Professor. Portugal : Editora do Porto, 1995.

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre, RS : Artmed, 1999.

_________________; As competências a serviço da solidariedade. In: Pátio, 2003, nº. 25, p.19.

WERNECK, Hamilton. Professor: agente da transformação. Rio de Janeiro : Wak Ed., 2008.

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MUSEU: Conhecer, Construir e Aprender


Rodrigo Neres
Valéria Farias


Naquele tempo havia um homem lá. Ele existiu naquele tempo. Se existiu, já não existe. Existiu, logo existe porque sabemos que naquele tempo havia um homem e existirá, enquanto alguém contar sua história.
Agnes Heller (1993, p. 13)blockquote>


Afinal, o que é museu? Um lugar monótono cheio de coisas velhas? Infelizmente, muitos ainda têm essa concepção, cria-se a idéia de que a visita ao museu é algo totalmente distante da realidade em que se vive. Este trabalho visa contribuir para a desmistificação dessa idéia. Não é nosso objetivo estabelecer um conceito único e fechado de museu. Podemos lançar idéias para que cada um crie o seu. Há diversos conceitos de museu, um dos mais recentes é do Departamento de Museus e Centros Culturais (DEMU) – IPHAN/MinC, de 2005:

"O museu é uma instituição com personalidade jurídica própria ou vinculada a outra instituição com personalidade jurídica, aberta ao público, a serviço da sociedade e de seu desenvolvimento...”

O DEMU destaca ainda suas características: o trabalho com o patrimônio cultural; acervos e exposições colocados a serviço da sociedade; uso do patrimônio como recurso educacional; investigação, preservação, interpretação e comunicação dos bens culturais; democratização do acesso, uso e produção de bens culturais; e constituição de espaços democráticos e diversificados.

Podemos dizer ainda que o museu é um laboratório da vida, já que o patrimônio cultural é a referência para o desenvolvimento das ações museológicas (pesquisa, preservação e comunicação). Pode-se dizer que patrimônio é o produto da relação do homem com o meio, podendo ser material, imaterial ou natural. Sua preservação é extremamente importante, pois assim podemos estabelecer uma ponte entre o passado e o presente.

Se ao visitar um museu, um indivíduo tentar estabelecer relações entre o acervo e sua própria época, começará a perceber que muita coisa vai ganhar sentido. Afinal, o que se construiu ontem reflete no hoje. O ser humano necessita saber sua origem, o porquê das coisas. Através do patrimônio, podemos entender os erros passados, procurar não repeti-los, aproveitar os bons feitos. Através dele é possível que o indivíduo tenha maior interação com a realidade em que vive, que seja capaz de interpretá-la; o que faz com que exerça seu papel de cidadão na sociedade.

Sendo assim, fica clara a importância da salvaguarda do patrimônio. É necessário conscientizar a população, através da educação, a qual está muito ligada ao amor. Precisamos despertar este sentimento pelo patrimônio no indivíduo, ensinar a valorizá-lo, mostrar sua importância para a sociedade. Assim, os bens culturais passam a ter um significado na vida do homem, conseqüentemente passarão a ser cuidados e preservados. Desta forma, evitamos a alienação cultural, a falta de memória e de identidade cultural.

Para este trabalho, é de extrema relevância a parceria com as escolas, pois é necessário que desde cedo o indivíduo internalize a importância do patrimônio na sua vida e crie o gosto pela visita a exposições culturais. Os estudantes de hoje são os adultos de amanhã. Para que isto aconteça, é necessário que professores, coordenadores e diretores abracem a causa.

O museu (ensino não-formal) não pode substituir a escola (ensino formal). Cada um possui seu papel, que não deve ser ignorado. O que destacamos é a parceria entre as instituições, importante tanto para a preservação do patrimônio como para o aproveitamento do mesmo na vida dos alunos. Salientamos a importância do museu para o processo de ensino-aprendizagem, acreditando que o mesmo é um lugar vivo e dinâmico, onde a tradição pode ser conhecida, percebia, questionada e reinventada (SANTOS, 2008, p.125)



Referências:

HELLER, Agnes. Uma Teoria da História. Rio de Janeiro : Civ. Brasileira, 1993.

SANTOS, Maria Célia Teixeira Moura.Museu e Educação: Conceitos e Métodos. In: Encontros Museológico – reflexões sobre a museologia, a educação e o museu. Rio de Janeiro : MinC/IPHAN/DEMU, 2008, p. 125 – 146.

Rodrigo é Professor de Educação Infantil e Anos Iniciais, Graduando em História e pós-graduando em História: Cultura, Memória e Patrimônio e Planejamento e Gestão da Educação pela URI- Campus de Santiago. Atualmente é funcionário do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Santiago – Terra dos Poetas. E-mail: rodrigoneres1@gmail.com

Valéria é Museóloga pela Universidade Federal a Bahia e Especialista em História: Cultura, Memória e Patrimônio, pela URI- Campus de Santiago. Atualmente é Professora substituta do curso de Museologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Email: valreab@gmail.com