segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O TURISMO DE EVENTOS NA TERRA DOS POETAS

És tu Santiago, meu rincão agreste,
Bendito, pelo encanto destas tardes,
Pelas horas de sonho que me deste!

Tarde Campeira - Zeca Blau


O município de Santiago, RS, está em processo de afirmação de uma identidade cultural a partir da denominação de “Terra dos Poetas”, traz consigo um número expressivo de eventos artístico-culturais e de negócios, os quais podem ser explorados através do setor de Turismo, auxiliando no desenvolvimento local, na prestação de serviços, na geração de emprego, renda e na consolidação de suas produções e potencialidades. O que se pretende com o referido trabalho é justamente refletir sobre a possibilidade de se investir no Turismo aliado a propostas de desenvolvimento local e na solidificação de uma identidade cultural, que por sua vez é objeto turístico, merece e necessita ser trabalhada como tal.

Por mais que o Turismo seja hoje um fenômeno social novo, ele encontra-se em plena expansão com grande capacidade e diversidade de exploração e estudo. Faz-se necessário desmitificar a idéia de que a atividade turística deva pensar exclusivamente no retorno financeiro imediato, pois o Turismo foi, desde os jogos helenos na Idade de Ouro, e continua a ser na contemporaneidade, um grande instrumento de aproximação humana e fonte de cultura e interações sociais.

Cabe lembrar que os investimentos no setor do Turismo trazem retorno a longo prazo, na medida em que há a consciência coletiva em prol da melhoria da oferta turística, da necessidade de investimentos constantes, da qualificação e da diversificação dos serviços prestados e o principal de tudo, que a comunidade sinta-se responsável em auxiliar a atividade turística em sua localidade. Por exemplo, como vender a idéia de uma “Terra dos Poetas” se seus moradores não têm conhecimento da produção e dos produtores artísticos e o pior, que não sintam a importância de divulgá-los e muito menos de se orgulharem dessas produções. Então de nada adianta os investimentos para atrair visitantes se a comunidade local não está abraçada a causa e motivada a contribuir.

Mas assim como o Turismo, as mentalidades e as identidades são construídas ou alteradas em processos longos e não imediatos. Por isso é necessário se criar políticas públicas que vislumbrem a construção dessas bases, incentivando as ações em prol do fortalecimento do Turismo, da Educação Patrimonial e, sobretudo da valorização da História Local.

A história da humanidade nos relata que desde os primórdios o ser humano cultiva o espírito turístico, seja por curiosidade do desconhecido, necessidade de arriscar-se, de desbravar, de ampliar margens econômicas, ou até mesmo em questão de sobrevivência.

Os discursos em torno do Turismo são levantados em várias áreas do conhecimento como na Administração que procura gerir os processos de aplicabilidade econômica dos recursos oriundos das atividades turísticas, como também, criar mecanismos que dinamizem as ofertas e incentivem o empreendedorismo na área. Há a discussão no campo das Ciências Humanas, como é o caso da História que objetiva analisar a amplitude turística de uma localidade em relação a sua cultura, seja ela material ou imaterial, incentivando a Educação Patrimonial, a construção de identidades e o uso das mesmas como objeto turístico. Pois sabe-se, como coloca BENEVIDES (1996), que a manutenção da identidade cultural dos lugares, tendo na comunidade os atores do processo, favorece o estabelecimento de pequenas operações com baixos efeitos impactantes de investimentos.

Segundo DIAS (2003), grande parte dos municípios brasileiros possui atrativos que justificam a vocação para o Turismo, sendo defendido pelos economistas como uma atividade rentável e ressaltado por estudiosos como benéfico no que diz respeito à melhoria da infra-estrutura urbana e de acessos, geração de rendas, de impostos e de empregos, geração de divisas, reativação de certas atividades econômicas e enriquecimento cultural. Por essa razão que a maioria dos prefeitos desses municípios o inclui em seus planos de governo, como mola propulsora de desenvolvimento socioeconômico.

É realidade que o Turismo é o setor da economia que mais cresce na atualidade, já tendo alcançado o status de principal atividade econômica no mundo. Superando setores tradicionais como a indústria automobilística, a eletrônica e a petrolífera. Segundo dados do Conselho Mundial de Viagens e Turismo, é uma atividade que tende a crescer 7,5% ao ano nos próximos 10 anos, movimenta cerca de US$ 3,4 trilhões (10,9% do PIB mundial) e emprega 204 milhões de pessoas (10% da força de trabalho global), além de possuir um número incalculável de atividades relacionadas.

Por essa razão o Turismo tem grande papel frente o desenvolvimento local, uma vez que tenham estratégias de exploração que priorizem esse objetivo de dinamizar a economia de uma localidade a partir de suas potencialidades. Procuro discutir nesse trabalho esse enfoque, voltado aos eventos realizados em Santiago, uma vez que, são poucos os atrativos turísticos naturais ficando evidenciado a sobreposição do Turismo de Eventos em relação às outras formas de exploração turística.

No calendário municipal, os santiaguenses contam com uma vasta agenda de shows, torneios, feiras e festivais, os quais devem ser trabalhados para atrair investimentos externos, ou seja, dinheiro dos turistas. Que ao visitarem a cidade para um Festival de Teatro, por exemplo o Santiago Encena, acabem consumindo nos estabelecimentos, mas também levando imagens agradáveis dos espaços da cidades, que servirá de estímulo para futuras visitas.

Para CAVACO (1996), o turismo ligado ao desenvolvimento local se assenta na revitalização e na diversificação da economia. Possui plena capacidade de fixar e atrair a população com êxito no sentido de assegurar melhores condições de vida. Apresenta, também, considerável sucesso na valorização da produção de produtos agrícolas, além de favorecer os planos de desenvolvimento do artesanato e outras atividades ligadas ao turismo e à cultura, a exemplo das feiras e festas tradicionais e populares.

Com isso DIAS (2003) nos diz que a importância do Turismo orientado pelos valores culturais se reflete pelo valor para o conhecimento de uma região, de uma época ou de um modo de viver, através do imaginário e do simbólico de uma comunidade, constituindo-se em Patrimônio e conforme PASSOS (2002) no redespertar dos valores culturais, valorizando as manifestações antropológicas, religiosas, artísticas, folclóricas, artesanais e históricas.

A partir dessas discussões, gostaria de tecer a idéia do uso da identidade cultural “Terra do Poetas”, alcunha esta criada pela Lei de Número 046/98 de autoria do vereador Nelson Peraça Abreu, como objeto turístico para o desenvolvimento local. Servindo como caminho para as explorações econômicas de eventos e tornando-se fonte de renda para vários segmentos da sociedade. É necessário se criar oportunidades para o desenvolvimento de novas metodologias de exploração desta identidade, que não fique apenas restrita a produções literárias. Mas que essas produções sejam fonte para uma gama de novos produtos a serem ofertados que acabam consolidando ainda mais Santiago com a “Terra dos Poetas” e divulgando-a além de suas fronteiras.

Minhas discussões não são findas, são apenas o princípio de inúmeros desafios, não apenas teóricos, como também práticos, cabendo não somente ao Poder Público pensá-las e aplicá-las, mas toda a comunidade deve se sentir parte integrante do processo de desenvolvimento. Pois a comunidade local tem oportunidades de envolvimento em todas as etapas do processo de exploração do turismo, sendo importantíssimo que ela seja parceira e acredite no potencial de sua cidade, seja esse natural, artístico ou histórico.

O Turismo, em sua expansão, é capaz de provocar alterações generalizadas no modo de como as pessoas vêem o mundo e com ele se relacionam. Assim, podemos concluir que o Turismo pode transformar-se em uma rica e significativa fonte de renda ao município, desde que invista em recursos, desde a divulgação, a promoção de eventos e melhorando a infra-estrutura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas, 2000.

BENEVIDES, Irleno Porto. “Para uma agenda de discussão do turismo como fator de desenvolvimento local” In: RODRIGUES, Adyr Ballestrari, (Org.), Turismo e Desenvolvimento Local. São Paulo : HUCITEC, 1996, p. 23-41.

CAVACO, Carminda. Turismo Rural e desenvolvimento local. In: RODRIGUES, A. B. (Org.), Turismo e Geografia: reflexões teóricas e enfoques regionais. São Paulo: HUCITEC, 1996, p. 94-176.

DIAS, Reinaldo. Turismo sustentável e Meio Ambiente. São Paulo : Atlas, 2003.

PADILHA, Pedro Magalhães de. O Turismo. Rio de Janeiro : Bloch Editores, 1972.

PASSOS, Luciana Andrade dos. Paisagem Natural, Patrimônio Cultural e Turismo nos Cariris Paraibanos. Dissertação de pós-graduação. UFPB : João Pessoa, 2002.

PESSAVENTO, Sandra J. História e História Cultural. Belo Horizonte : Autentica, 2004.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

OS DIÁLOGOS ENTRE CLIO E CALÍOPE






Agora tu, Calíope, me ensina... Poderia ter dito Clio à musa sua irmã... Porque Calíope pode “ensinar” à Clio, e vice-versa, num tempo como o nosso, de confluente diálogo entre as diferentes disciplinas ou campos do saber.
Sandra Jatahy Pesavento



No tempo dos Deuses, na antiga Grécia, o Monte Parnaso era a morada das Musas, filhas de Zeus com Mnemósine, a Memória. Ao todo eram nove Deusas-irmãs que tinham o dom de dar existência para o que cantavam, sendo que, cada uma inspirava uma das artes.

O Mouséion era a casa onde Calíope, Clio, Erato, Euterpe, Melpômene, Polímnia, Tália, Terpsícore e Urânia dançavam e cantavam o passado, o presente e o futuro. Mas uma entre as nove vai se destacar.

Carregando o estilete da escrita e a trombeta da fama em mãos, Clio, a “proclamadora” musa da História, vem nos fazer crer que era uma filha muito querida, pelo fato de partilhar juntamente com sua mãe o passado e a mesma tarefa de fazer lembrar. Há quem pense até que Clio supera Mnemósine, sendo que fixava em narrativa, aquilo o que cantava, com o seu estilete e com a sua trombeta conferia notoriedade ao que celebrava (Pesavento 2005, p.7).

A mais velha das Musas era Calíope “a de bela voz”, que é a musa da epopéia, da poesia épica e da eloqüência. Com quem Clio tinha muita afinidade. E é explorando essa afinidade que podemos estabelecer conexões entre a História de Clio e a Literatura de Calíope.

Porém devemos ter clareza que elas não se confundem. Pois História e Literatura, segundo Pesavento (2006) correspondem a narrativas que explicam o real e que se renovam no tempo e no espaço, mas que possuem um traço de permanência ancestral: os homens, desde sempre, através da linguagem, expressaram o mundo do visto e do não visto, com diferentes formas: a oralidade, a escrita, a imagem e a música.

O que pretendo é justamente discutir o diálogo entre essas duas áreas do conhecimento que possuem características próprias. Porém, é necessário assumir uma postura que dilua as fronteiras, para poder ser feita uma aproximação entre as áreas de Clio e Calíope. Colocando em pauta relações de aproximação e distanciamento.

O real. É um fator que as aproxima. Porque tanto História como a Literatura são narrativas que tem como referência o real, podendo ele ser confirmado ou negado e até mesmo, sobre ele ser construída uma nova versão que pode ultrapassá-lo.

Cabe-nos lembrar que assim como as Musas participaram da construção do mundo, pois criavam aquilo que cantavam. História e Literatura são formas de “dizer” a realidade, na medida que partilham da recriação do real, através de um mundo construído de palavras e imagens (Pesavento, 2000).

Já para distanciar, Clio e Calíope, vem a noção de que a Literatura é o discurso sobre o que poderia ter acontecido, ficção e a História fica como a narrativa de fatos verídicos. Pesavento (2006) nos diz que discutindo esse diálogo é como percorrer pelas trilhas do imaginário e que os historiadores que hoje trabalham com ele discutem não só o uso da Literatura como fonte ao passado, como o próprio caráter da História como uma forma de literatura.

Ou seja, tomam o que não aconteceu para recuperar o acontecido e vêem a História como uma narrativa composta de ficção. Pesavento (2005 p. 112) coloca que:


Tais questões, abertas por vezes de forma iconoclasta, fora da História (caso de Roland Barthes) ou dentro dela (no exemplo de Hayden White), vieram encontrar uma abordagem epistemológica extremamente fina através da hermenêutica instaurada por Paul Ricoeur. A reação não se fez esperar por meio de historiadores como Roger Chartier, Krzysztof Pomian ou Philippe Boutry. Mesmo aceitando a ficção no terreno da História e a construção narrativa do passado como uma versão verossímil do acontecido, recusavam abolir as fronteiras entre História e Literatura.


O real, na relação com o historiador é diferente, como o método empregado também é. E mesmo fazendo estas aproximações e distanciamentos, Pesavento (2005, p.112) diz que ao colocar-se em diálogo com esses novos parceiros, o historiador, precisa se familiarizar com novas questões oriundas desses novos campos. Como as que colocam a História e a Literatura como leituras possíveis de uma recriação imaginária do real. (Leenhardt & Pesavento, 1998) o que aproximaria perigosamente o historiador do escritor de ficção.

Essa aproximação ou distanciamento, entre as duas áreas, é uma história que tem raízes nas idéias de Aristóteles. Pois esse filósofo em sua obra Poética estabelece uma antítese entre História e Literatura, vindo a criar vários obstáculos entre as duas, quase que intransponíveis (Mendonça, 1995).

Para Aristóteles, por tratar de verdades possíveis ou desejáveis, a poesia é mais filosofia, elevação e universalidade. E a História trataria de verdades acontecidas e particulares, sendo não universais.

O que pode ser interpretado segundo o pensamento do filósofo, é que esses dois campos do saber diferem na abordagem que dão aos acontecimentos ocorridos. Ficando mais evidente esse pensamento quando Aristóteles (In: Os Pensadores, 1973, p. 443-471) aborda que:


(...) não diferem o historiador e o poeta por escreverem verso e prosa (...), diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam, e outro as que poderiam suceder. Por isso a poesia é algo mais filosófico e mais sério do que a história, pois refere aquela principalmente o universal, e esta o particular. Por referir-se ao universal entendo eu atribuir a um individuo de determinada natureza pensamentos e ações que, por liame de necessidade e verossimilhança, convém a tal natureza; e ao universal, assim entendido, visa a poesia, ainda que dê nomes às suas personagens. Outra não é a finalidade da poesia, embora dê nomes particulares aos indivíduos; o particular é o que Alcibíades fez ou que lhe aconteceu.



Então, houve a construção de manifestações contrárias à inteligência: a concepção de arte e história, ficção e verdade. O que com os tempos modernos e o crescimento do racionalismo, vai culminar na acentuada contraposição desses termos.

Antonio Celso Ferreira (2000) nos fala que a poesia, arte e a ficção seriam desqualificadas como modos do conhecimento do real, passando a ser de um mundo fantasioso para o artista ou metafísico para o intelectual.

Em contraposição, temos as ciências da objetividade, racionalidade que cumprem funções úteis para a sociedade, solidificando a separação entre arte e ciência. E segundo Costa Lima (1984, p.31) houve “um verdadeiro veto ao ficcional, um controle ao imaginário, decorrente do racionalismo, pôde ser assistido desde meados do século XVIII, atravessando os mais variados discursos, até mesmo os artísticos”.

Com o Romantismo procurou-se valorizar a literatura ficcional, manifestando uma aversão para a ciência. E no século XX, por mais que abandonados esses ideais românticos, com o científico, buscou-se assegurar o literário e o estético com singularidade diante das ciências.

E mais uma vez as idéias aristotélicas entrariam em cena para demarcar posições. O verossímil para Calíope e o verdadeiro para Clio. Aquino (1999, p.16) coloca para a Literatura o verossímil como a impressão de verdade, não necessariamente falsa, que se inclui no espaço ficcional e para a História o verdadeiro no sentido da representação do acontecimento particular.

Com isso, se propagou no século XIX e até algumas décadas do século XX, a noção de campos distintos para História e Literatura. E a História acabou por se autodenominar como a única possibilidade de registro do passado, não sendo reconhecida tal capacidade para a Literatura.

A aproximação se dá através da crise de paradigmas de interpretação do real na passagem do século XX para o XXI. Pesavento (1995) coloca que o debate sobre a história e suas conexões com os gêneros literários já estava colocado desde a década de setenta do século passado.

Dentro e respaldada por uma prática interdisciplinar essa abordagem vem crescendo e interrogando as fronteiras instituídas do conhecimento. Encontrando terreno fértil nos trabalhos com o imaginário e no embasamento da História Cultural ou da Nova História Cultural de Lynn Hunt (1992), onde discute a expansão das fronteiras da História, procurado respostas à pergunta: como a narrativa histórica representa a realidade?

O texto literário, na tentativa de contribuir para a resposta da questão, traz consigo a expressão ou sintoma de formas de pensar e agir. Ricoeur (1983/5) nos coloca diante da possibilidade de pensar a Literatura na relação da História como um inegável e recorrente testemunho de seu tempo. Pois utilizando as palavras de Pesavento (2006) “a Literatura registra a vida”. Sendo esta uma das metas mais buscadas nos domínios da História Cultural e esta, a partir de seus pressupostos e preocupações, proporciona uma abertura dos campos de pesquisa para a utilização de novas fontes e objetos, entre as quais se encontra o texto literário.

Assim nos diálogos entre Clio e Calíope, evidência-se que a Literatura é uma fonte para o historiador, de certa forma privilegiada, por lhe dar acesso ao mundo do imaginário. Coisa que outras fontes não lhe dariam, porque a Literatura é narrativa que, de modo ancestral, pelo mito, pela poesia ou pela prosa romanesca fala do mundo de forma indireta, metafórica e alegórica.

Conforme Pesavento (2006) a coerência de sentido que o texto literário possui é o fundamento necessário para que o olhar do historiador se guie para outras fontes e nelas enxergue o que antes não havia visto. Nesta dimensão, a Literatura inaugura um algo a mais como possibilidade de conhecimento de mundo.

Gosto das palavras de Pesavento (2005, p.113), ao expressar que:

Neste cruzamento que se estabelece entre a História e a Literatura, o historiador se vale do texto literário não mais como uma ilustração do contexto em estudo, como um dado a mais, para compor uma paisagem dada. O texto literário lhe vale como porta de entrada às sensibilidades de um outro tempo, justo como aquela fonte privilegiada que pode acessar elementos do passado que outros documentos não proporcionam.


Falar sobre as relações entre História e Literatura dá muito que questionar. Porém o que quero deixar claro é a possibilidade de trabalho unido e interdisciplinar entre essas duas construções de mundo, porque tanto Clio quanto Calíope podem e devem ser trabalhadas juntas.

Dentro deste trabalho monográfico não pretendo prolongar o debate sobre as relações entre os dois campos do saber, mas sim levantar uma problemática do uso para a resolução de um questionamento que serve de objeto de estudo comum.

Ao dialogarem Clio e Calíope se enriquecem e abrem as portas para novas abordagens e questionamentos. As duas narrativas se empenham no esforço de registrar a vida, re-apresentar o real e, mesmo que suas estratégias de argumentação possam ser diferentes, um diálogo ou um cruzamento de olhares entre os domínios das duas Musas pode ser muito gratificante, como também, bastante esclarecedor (Pesavento, 2000, p. 8).

Tanto a Literatura, quanto a História contribuem para a atribuição de uma identidade, social e individual, provocando modelos de comportamento, expressando as forças sociais e do poder, possuem e criam condições para a coesão social.

Na contemporaneidade, busca-se mais do que nunca, a quebra das fronteiras entre os campos do saber ou áreas do conhecimento. Procura-se uma prática interdisciplinar que possibilite a resolução de novos problemas, os quais necessitam de diversos olhares. E, que, na maioria das vezes são oriundos de problematizações de diferentes campos que se encontram na busca de respostas.

Assim, com esse novo olhar, Clio e Calíope se encontram para trocarem idéias e experiências. Partilharem juntas como Musas-irmãs de novos questionamentos na busca de procurar resolvê-los.

Nesse encontro onde acontece o diálogo, há a construção. Construção essa de conhecimentos, valores, paisagens, costumes, linguagens, mentalidades, padrões, paradigmas e visões de mundo. Que contribuem para a descoberta de novos mundos, onde as personagens que os compõem podem ser tanto os indivíduos pelos quais nos esbarramos diariamente ou aqueles que existem e habitam nossa imaginação, que são reflexos do tempo e do espaço em que vivemos, e que estão presentes nos constantes diálogos entre Clio e Calíope.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Entre a BOLA e o LIVRO


No mês de janeiro, o futebol dividirá o seu reinado em Santiago com a Literatura. Nada mais justo, visto que, somos a “Terra dos Poetas” e necessitamos internalizar o gosto pela produção artístico-literária para reconhecê-la como patrimônio. Construindo assim, bases fortes e concretas na consolidação de uma identidade cultural abrangente, dinâmica e valorizada.

Por essa razão é tão importante o apoio e a participação da sociedade santiaguense no I Fórum Latino-Americano de Literatura Contemporânea e no II Encontro de Escritores do MERCOSUL, que acontecerão entre os dias 22 e 24 de janeiro, sob a coordenação da Casa do Poeta de Santiago. O legal neste evento é que ele acontecerá integrado à Copa Santiago de Futebol Juvenil, vindo a somar forças aos atrativos culturais do município e ao desenvolvimento sócio-econômico.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Urânia e a arte de observar estrelas

“Somente quem tem o caos dentro de si pode dar à luz uma estrela bailarina.” (Nietzsche)


Os céus sempre despertaram interesse nos seres humanos, desde os primórdios dos tempos à contemporaneidade. E essa arte de observar os astros acompanha a história humana nas mais diferentes culturas e civilizações, quer seja ligada a rituais religiosos, como na maioria das vezes, ou para contagem do tempo, previsões e até mesmo para se explicar o próprio mundo e o porquê de se estar nele, através da narrativa mitológica.

Com os olhos voltados para o céu e vestida com um manto bordado de estrelas cintilantes, a “rainha das montanhas”, Urânia, a Musa grega da astronomia e da astrologia, faz-se presente em cada momento de contemplação. Onde nós, meros mortais, ficamos a admirar os mistérios luminosos sob nossas cabeças, imaginando, sonhando e até esperando...

Pessoalmente sempre tive e tenho até hoje um fascínio por observar as estrelas, lembro que quando criança adorava passar momentos deitado na grama olhando para a o céu. Procurava encontrar as formas das constelações, fazia meus próprios desenhos, esperava pelos famosos “discos voadores” e não me contentava com as explicações: “essas estrelas andantes são satélites!”. Adorava segui-las, não me importando com as verrugas que cresceriam nas pontas dos dedos de tanto apontá-las, perde-las, procurá-las e encontrá-las novamente. Certamente era como um pequeno discípulo da Musa inspiradora do estudo dos astros.

Ainda me pego fechando os olhos e fazendo pedidos ao observar cortar o céu um rápido risco luminoso, que ainda insisto em chamar de estrelas cadentes. Sabe como é? Crescemos e passamos a validar somente o conhecimento científico universal e deixamos de dar crédito às fantasias, histórias e aos mitos populares e infantis. Que bobagem! Pois é justamente esse universo fantasioso, onde habita o imaginário, que nos dá as condições necessárias de vivermos frente a todos os desafios que o mundo real nos apresenta e nos impõem.

E justamente por causa desse mundo real, que acabei esquecendo essas coisas e que agora me recordo com tão bons sentimentos, graças a ilustre presença de Mnemósine. Ando (como muitos) sempre cheio de afazeres, compromissos e coisas para pensar e me preocupar, que acabo esquecendo das coisas mais simples que me enchem de prazer, como é o fato de observar as estrelas.

Costumo, ao ir embora a noite, após falar algumas bobagem com a Andressa, colocar meus fones, escutar minhas músicas, cantarolar as vezes e manter um ritmo de caminhada contínua sem ficar me detendo com o mundo a minha volta. Nesses momentos meu pensamento voa longe e espero só chegar em casa, deitar e dormir para iniciar mais um dia em minha sobrevivência.

Sabe, já faz tempo, mas uma noite dessas (e várias outras também), fui pego de surpresa. Pois a senhora onde eu moro, ao me ver chegar perguntou: Como está o tempo? Até aí tudo bem, mas em breve vieram as perguntas: Como está o céu? Está estrelado?... Bem eu não sabia o que dizer, pois não tinha o costume de olhar para o céu, ou ao menos não de me deter nele, ou gravar alguma imagem que desse margem a uma resposta melhor do que a minha: Não sei, não olhei... Vim com tanta pressa que nem reparei.

Puxa! Ficava arrasado toda vez de responder, como posso não ter olhado ou visto algo de diferente, não percebi que lua era, ou pior, se tinha uma a brilhar no céu. Mas um dia decidi me preparar, para quando me for perguntado eu consiga responder sem ficar constrangido. Comecei a parar antes de entrar em casa, ainda ouvindo música e olhar para o céu. É maravilhoso! Geralmente fico até terminar uma música ou começar uma outra e de vez enquando tem um vizinho a olhar timidamente por entre frestas de janelas e a imaginar: que estranho... que louco... deve estar bêbado... ou é pancada mesmo.

Não me importo! Pois emergiu em meu ser momentos mágicos a tempos esquecidos. Percebi o quanto gosto de olhar as estrelas e que ainda possuo os mesmos sonhos, desejos e fantasias da infância. Que bom!

De vez em quando, durmo somente com os vidros da janela fechados para poder observar o céu, cuidar o caminho das estrelas andantes, segui-las e até fazer alguns pedidos quando surpreendido por alguma estrela cadente. Parece uma coisa tão boba, mas tem um poder simbólico tão grande, carregado de sentimentos e com a mágica necessária para fazer com que eu viva em outro mundo, em outra realidade. Coisa que somente Urânia consegue mensurar e compreender.

Certo dia li num jornal que ganhei de um amigo, um texto escrito por ele sobre a arte de tomar sorvete no calçadão e me identifiquei com sua escrita. Até pensei em comentar com ele sobre isso, mas acabei me esquecendo. Pois é justamente esse sentimento de déjà vu, de identificação com o momento ou com a ação, fragmentados nas reminiscências de nossas memórias, que fazem com que se dê tanto sentido para essas pequenas coisas, tornando-as gigantescas.

Adoro olhar as estrelas, gosto do cheiro de terra molhada, admiro uma boa chuva, seus pingos a água se acumulando ou correndo, um purificante banho de chuva, o cheiro de pão quente, chocolate a qualquer hora, o perfume inconfundível que lembra minha mãe, comer pêra verde, o mingau de aveia da Sandra, olhar desenhos animados de antigamente, filhotes de cachorro, pescaria mesmo sem pescar nada, jogar Super Mário, assustar as pessoas, rever queridos amigos, falar bobagens, rir e lembrar do passado.

Bom, na verdade não importa o que dos traz lembranças, mas que as tenhamos. Mesmo que as vezes nos façam chorar, o importante é saber que temos algo à rememorar, ou a identificarmos com o outro, pois como nos fala Maria Zambrano; “Não é de todo infeliz aquele que pode contar a si mesmo a sua história...”


À querida Irmã Iracy Pizzutti que sempre me falou que: Os que ensinam os outros, um dia como estrelas, no céu brilharão.”


O SILÊNCIO DAS ESTRELAS

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

SANTIAGO ENCENA:

A Magia e a Realidade na Festa de Tália e Melpômene.

O teatro é uma arte efêmera
há mais de dois mil anos.

Millôr Fernandes


Durante o mês de novembro de 2009, entre os dias 23 a 26, a cidade de Santiago, no interior do Rio Grande do Sul, conhecida como a “Terra dos Poetas”, recebeu visitas ilustres. Algumas vindas do reino da narrativa mitológica e que habitam a esfera celestial desde a Grécia Antiga e se fazem presentes até hoje para provocar a nossa reflexão sobre o real sentido e origem das coisas. E aí? Já descobriu quem são? Estou me referindo as Musas Tália e Melpômene, Deusa-irmãs, filhas de Zeus e Mnemósine e habitantes do Museion.

Com seu cajado de pastor e a máscara cômica em mãos, a “festiva” Tália musa grega da comédia, transita entre nós distribuindo risos e gargalhadas, mas ao mesmo tempo, nos faz ver a graça existente nas pequenas coisas do nosso cotidiano, que nos passam desapercebidas e que ora nos orgulham ora nos envergonham. Mas mesmo assim achamos graça.

Sem graça nenhuma, Melpômene a musa grega da tragédia, perambulando com seus coturnos gastos e carregando em suas mãos uma faca e a máscara trágica, nos mostra a verdadeira face da tristeza e do desespero humano, nos colocando frente todas as mazelas da existência. Ou como nos fala Aristóteles, o primeiro teórico da tragédia, ao apontar os dois conceitos que definem esse gênero: a mimese – a imitação da palavra e do gesto de modo a despertar os sentimentos de terror e piedade no público, e a catarse – que é o alívio desses sentimentos através de um efeito moral e purificador.

Mas tanto Tália como Melpômene, fazem com que a nossa humanidade seja questionada frente a indagações filosóficas contextualizadas com a nossa realidade, os nossos modos de agir e pensar e até mesmo, com as nossas próprias concepções, pré-conceitos e interpretações do real e do imaginário. Porém essas Deusas não costumam andar sozinhas. Elas possuem uma legião de seguidores, nômades, sem paradeiro e que conseguem romper com as barreiras temporais, dominando as representações do passado, presente e até de inúmeros e prováveis futuros, de incalculáveis mundos e galáxias distantes e inexploradas.

Uma gente que se encontra em torno de uma idéia, de uma vontade, de um objetivo, de uma boa história... Em lugares a princípio escuros, incômodos, desafiadores por vezes, mas que por um momento de magia, se transformam em qualquer espaço ou coisa cabível à imaginação. Revelando cores, luzes, sombras, ritmos e por fim universos.

Essa gente capaz de realizar sonhos e distribuir fantasias, é o Povo do Teatro. Todos eles! Atores, diretores, iluminadores, sonoplastas, maquiadores, figurinistas... Enfim, todos construtores de mundos, de personagens e de espetáculos. São eles que fazem acontecer a festa das Musas, que as mantém vivas entre os palcos, ao abrir e fechar de cortinas e ao término dos aplausos.

E assim, conseguem fazer do teatro a arte mais próxima da vida humana, uma vez que o ser humano é por natureza um ser teatral. Uso novamente o pensamento de Aristóteles, que nos explica que desde a infância os homens apresentam em sua natureza uma tendência para representar e uma tendência para assistir tais representações.
O que poderíamos dizer que o próprio teatro existe pela necessidade dos homens extravasarem suas angústias, medos, paradigmas e ideais. Ou melhor, como nos fala Pierre Bugard, que mais do que nunca essa arte se faz necessária pois “hoje, os deuses morreram, estamos sozinhos, o mito esvaziou-se, a tragédia abandonou a cena da cidade grega e foi habitar para o nosso inconsciente. (...) Ficou-nos a nevrose para nos preservar dela, resta-nos o Teatro.”

O encontro da Gente do Teatro resulta na grande festa das Musas Tália e Melpômene. Na cidade de Santiago, RS, esse momento há treze anos denomina-se SANTIAGO ENCENA, que na verdade se trata de um Festival de Teatro Amador.

Desde o ano de 1997 esse festival faz parte do calendário de eventos do município, atraindo um público que busca não apenas diversão e lazer, mas também, a oportunidade de interagir com as mais diferentes manifestações culturais e novas formas de ver e interpretar o mundo e a realidade a sua volta. Lembra-se, conforme FUSARI (2001, p. 78), que é importante a prática de educar nosso modo de ver, para que ocorra a transformação e a conscientização do nosso papel social, enquanto agentes participativos no meio ambiente e na realidade cotidiana e sendo o teatro campo nobre para tais ações e análises.

O primeiro Santiago Encena teve o objetivo de proporcionar à comunidade local a apreciação da arte cênica e da dança criativa de grupos teatrais e de instituições escolares que tinham a necessidade de difundir sua expressão artística. A partir do ano de 1998 o Santiago Encena, devido ao sucesso e a repercussão da primeira edição, passa a ser em nível regional contando com a participação de grupos teatrais de várias cidades do estado do Rio Grande do Sul.

Desde a décima segunda edição, no ano de 2008, o Santiago Encena foi um Festival de Teatro Amador e Dança Coreografada, sendo que na sua trajetória 122 danças coreografadas, 79 peças teatrais infantis e 99 espetáculos adultos foram apresentados a comunidade, para a alegria das duas Deusas-irmãs.

No ano de 2009, realizou-se, sob a proteção celeste direto do Monte Parnaso, a décima terceira edição do Festival, contando somente com a categoria de Teatro Amador, uma vez que, foi reformulado seu regulamento e suas categorias de premiação. Estavam na disputa 04 espetáculos na categoria infantil e 05 na categoria adulta, com grupos de teatro amador, além da cidade de Santiago, também das cidades gaúchas de Itaqui, São Francisco de Assis e Uruguaiana.

O Santiago Encena é uma promoção da Prefeitura Municipal de Santiago, através da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. É um evento que vem fortalecer e alicerçar ainda mais a identidade cultural da “Terra dos Poetas”, como é conhecida a cidade de Santiago, RS, pois afinal foram 13 anos de efetiva existência junto a promoção e difusão artístico-cultural. Trazendo consigo uma mensagem de amor a arte, sem preconceitos e valorização da capacidade e criatividade humana, pois como nos fala MARTINS (1998, p.6):

(...) a linguagem da arte. Feita para o homem mergulhar dentro de si mesmo trazendo para fora e para dentro dos outros homens as emoções do próprio homem. Sabe o homem que as emoções é que são o sal da vida. Por isso é que quando um homem quer falar ao coração dos outros homens ele o faz pela linguagem da arte. Quando isso acontece, naquele homem sente e age o artista.


Por essa razão, alicerçados em preceitos que valorizam e incentivam as expressões, habilidades e potencialidades de homens e mulheres, personagens condutores da teia tecida por Clio, a musa da História e irmã querida de Tália e Melpômene, é que o teatro se torna um investimento cultural de suma importância. Não se importando com o número de pessoas ocupando cadeiras em grandiosos salões, mas sim com sujeitos com a sensibilidade necessária para estarem abertos à arte e sabendo valorizá-la.

Não só o teatro, como também, toda a forma de expressão artística-cultural deve ser valorizada e vista como um investimento. E quem deve investir, incentivar, tomar para si, é a própria comunidade e não apenas os poderes públicos instituídos.
Deve-se ter a noção que ao investir em cultura, a colheita será a longo prazo e não imediata. O “aqui-agora” se têm através do retorno midiático, que deixa extremamente felizes os gerentes de marketing, mas o que importa realmente, é que as mentalidades sejam dialogicamente confrontadas, questionadas, que haja mudanças paradigmáticas... E isso deriva tempo, paciência, construção de gosto e polimento da sensibilidade humana frente a contemplação das inúmeras manifestações da arte e de suas Musas .

Portanto, enquanto a cidade de Santiago, RS, continuar com seus pequenos, mas talentosos, grupos de Gente do Teatro a serviço da festa de Tália e Melpômene, o movimento do teatro amador e a própria cultura agradecem e se fazem ainda mais vivos na “Terra dos Poetas” do Brasil

RODRIGO NERES


O teatro, casa dos sonhos... de Bertolt Brecht

Muitos vêem o teatro como casa
De produção de sonhos.
Vocês atores são vistos
Como vendedores de drogas.
Em seus locais escurecidos
As pessoas as transformam em reis e realizam
Atos heróicos sem perigo.
Tomando de entusiasmo
Consigo mesmo ou de compaixão por si mesmo
Fica-se sentado, em feliz distração esquecendo
As dificuldades do dia a dia – um fugitivo.
Todo tipo de fábula preparam com mãos hábeis, de modo a
Mexer com nossas emoções. Para isso utilizam
Acontecimentos do mundo real. Sem dúvida, alguém
Que aí chegasse de repente, o barulho do tráfego ainda nos ouvidos
E ainda sóbrio, mal reconheceria sobre essas tábuas
O mundo que acabou de deixar.
E também
Saindo por fim desses seus locais,
Novamente o homem pequeno, não mais o rei
Não mais reconheceria o mundo e se acharia
Deslocado na vida real.
Muitos, é verdade
Vêem essa atividade como inocente.
Na mesquinhez
E uniformidade de nossas vidas, dizem, sonhos
São bem-vindos. Como suportar
Sem sonhos? Mas assim, atores, seu teatro torna-se
Uma casa onde se aprende a suportar
A vida mesquinha e uniforme, e a renunciar
Aos grandes atos e mesmo à compaixão
Por si mesmo. Mas vocês
Mostram um falso mundo, descuidadamente juntado
Tal como os sonhos o mostram, transformado por desejos
Ou desfigurado por medos, tristes
Enganadores.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Fuga das Galinhas:

Planejamento como Necessidade de Mudança.

Rodrigo Neres de Morais


Muitas vezes me pergunto: Porque planejar? De que adianta tal ação? Esses questionamentos se fazem pertinentes, principalmente a quem trabalha com processos educativos, mas podem ser incluídos em qualquer aspecto da vida humana. Em situações cotidianas, que muitas vezes nos passam despercebidas e derivam, a priori, de um ato de planejar.

Os seres humanos são por natureza planejadores, estão sempre tentando concretizar seus desejos e aspirações que são anteriormente concebidos através de um processo de planejamento mental. Um fator muito importante e que não deve ser esquecido é a “possibilidade do planejamento”, ou seja, devemos analisar até que ponto é possível a concretização e a possibilidade de sucesso, tanto para a elaboração do planejamento, como para todas as outras etapas.

O Professor Celso Vasconcelos (1999, p. 51), enfatiza que “nenhuma pessoa de bom senso se envolve numa atividade sem previamente avaliar sua viabilidade.” Por essa razão faz-se necessário que o planejamento seja visto como um fator da vida, relacionado com o cotidiano dos homens e mulheres e, principalmente nos processos educativos deve ser encarado com responsabilidade e como recurso útil na melhoria da oferta do ensino, da aprendizagem e da construção de um mundo melhor.

É justamente esse “mundo melhor” que um grupo de galinhas sonha conquistar. Como assim galinhas? Calma, estou falando das personagens do filme de animação britânico “A Fuga das Galinhas”, do ano de 2000, com a direção espetacular de Peter Lord e Nick Park.

A história se passa na década de 50, numa granja de ovos da sinistra Senhora Tweedy, onde as galinhas são fadadas a viverem para a produção de ovos e quando isso não acontece é morte na certa.

Cansada com essa situação, a galinha protagonista Ginger, tece inúmeros planos para escapar das garras dos Tweedy, mas ela não pensa em sair sozinha. Só vai se todos forem com ela e se ela tiver a certeza que ficaram bem. No início é uma sucessão de fracassos, inúmeras tentativas frustradas, planos inviáveis, pois estava faltando algo muito importante: a definição de todas as etapas do planejamento. Como elas iam sempre de encontro a execução, já que era a grande problemática a fuga e a busca por liberdade, sempre tinha algum detalhe que passava despercebido e que pertencia há alguma outra fase anterior do planejamento, como a elaboração por exemplo, e isso acarretava no fracasso de todas as ações realizadas.

Ginger não percebeu que de tanto fracassar suas colegas começaram a perder o ânimo e talvez até duvidar se seriam capazes, se não era mais fácil aceitar aquela vida. Tanto que no filme isso fica evidente nas falas da galinha Bunty, que na maioria das vezes estava mal humorada e sempre tinha algo para contrariar ou fazer com que Ginger fosse desacreditada.

Quando tudo parecia perdido, eis que entra em cena o galante Galo Rocky, e sua entrada não foi de qualquer jeito não, ele entrou para o “campo de concentração aviário” simplesmente voando e aterrissando aos trambolhões. Ele foi o elemento que devolveu a esperança ao grupo e a perspectiva de uma conquista.

Rocky para conseguir tempo, para sair da enrascada que se meteu, já que dificilmente as galinhas conseguiram voar, como ele também não consegue, começa com uma prática de treinamentos e preparações para algumas outras frustrantes tentativas. Ah! E ele ainda tem que conseguir convencer, de suas boas intenções, ao velho galo Fowler, que demonstra muito medo e incerteza frente o novo, que é o que acontece na maioria dos casos na vida cotidiana humana.

Para motivá-las, Rocky, usa da diversão e distração, fazendo que as galinhas esqueçam por um momento sua situação fatídica e se alegrem com um bom som e muita dança. Mas com medo de sua fraude ser descoberta ele parte deixando as galinhas desorientadas, Fowler com a expressão “eu avisei” e Ginger desolada, já que estava mantendo um sentimento por ele.

Em meio a confusão aprontada, o clima esquentou e foram apontados vários culpados acabando tudo em um verdadeiro vale tudo na lama, até que Ginger é iluminada pelo ato de reflexão e busca na experiência velho Fowler uma oportunidade para conseguir o êxito da fuga. Primeiro elas passaram a elaborar detalhadamente cada ação, como poderia ser, de que forma, a quem competia a cada coisa.

Depois passaram para a execução das tarefas, cada um com uma atribuição específica e dentro de suas potencialidades e habilidades, assim somando esforços, vontade e desejos coletivos, como o impulso da volta de Rocky e as alianças necessárias com alguns colaboradores, as galinhas conseguem se organizar e superar suas dificuldades alcançando o tão sonhado paraíso.

Como elas conseguiram? Provavelmente repensaram suas ações e elaboraram seu plano de fuga seguindo cada passo destinado a um planejamento eficaz. Segundo ENRICONE (1989, p.13) “ O planejamento é um processo que consiste em preparar um conjunto de decisões, tendo tudo em vista o agir, posteriormente, para atingir determinados objetivos.”
Com a ajuda e visão de Ginger, o grupo pode constatar o diagnóstico da realidade em que viviam e projetar pontos de referência para saber por onde chegar no que queriam. Ao meu ver elas conseguiram o êxito porque colocaram em prática um planejamento composto por todas as partes: Marco Referencial, Diagnóstico e Programação, que seria a organização das ações.

COROACY (1972, p.79) reforça a idéia que:

“o planejamento é um processo que se preocupa com para onde ir e quais as maneiras adequadas de chegar lá, tendo em vista a situação presente e possibilidades futuras, para que o desenvolvimento da educação atenda tanto as necessidades do desenvolvimento da sociedade, quanto as dos indivíduos.”



Assim, pode-se observar as condições da realidade em que viviam, como conseguir instrumentos e ferramentas, que meios utilizar para fazer alianças, que recursos estão disponíveis, tanto humanos como materiais, ficando evidenciado nessa fase o Marco Situacional, o real. Já o Marco Doutrinal está na força do desejo, do sonho delas e na problemática da realidade: Para quê fugir? A onde chegaremos com isso? E finalizando o Marco Operacional aparece nas tomadas de decisões e posições do grupo: Como vamos nos organizar para conseguir? Ora de modo planejado e assumido por todos, pois todos são importantes e possuem contribuições valiosas para dar.

O filme “A Fuga das Galinhas” é um ótimo exemplo para se refletir sobre a importância do planejamento, se pensado em sua plenitude, e sobre os erros e falhas cometidas ao longo do processo. Tanto nas cenas, como nas falas das personagens pode ser explorado um leque de possibilidades de analise e discussão acerca do tema planejamento.

Decidi até em indicar esse filme para a Laura. Você conhece a Laura? Ela também é uma galinha, criada pela escritora Clarice Lispector que nos conta toda a “Vida íntima de Laura”. Quem sabe a Laura se inspira, ou se motiva a realizar uma mudança em sua vida, através de um planejamento voltado para a construção de um final diferente para a sua história. Pois segundo VASCONCELLOS (1999, p. 51) “a realidade que nos cerca, em função de suas gritantes e desumanas contradições, aponta para uma urgente necessidade de mudança”, eu estou aberto a encerrar esse desafio, e você está? Quem sabe damos as mãos e caminhemos juntos nesta jornada, aglutinando conhecimentos e experiências, começando devagar, com cautela, refletindo bem e seguindo confiante o caminho.

E quem disse que não conseguiremos mudar a realidade e construir um mundo melhor?


Referências:

COROACY, J. O Planejamento como Processo. In: Revista Educação, ano I, nº 4. Brasília: 1972.

ENRICONE, D. ET AL. Processo de ensino e avaliação. Porto Alegre: Sagra, 1989.

LISPECTOR, Clarice. A vida íntima de Laura. Rocco: Jovens Leitores.

VASCONCELLOS, C. dos S. Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político – Pedagógico. São Paulo: Libertad, 1999.